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Varíola

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Variola.jpg

Oitavo dia da varíola.

A varíola era uma doença infecto-contagiosa que é transmitida pelo ar e que entrava no corpo pelo tracto respiratório superior.

O termo foi pela primeira vez utilizado no ano 570 d.C por Bishop Marius de Avenches, na Suíça, para descrever uma epidemia em Itália e em França mas a doença não foi totalmente definida até aproximadamente ao ano de 900 d.C. pelo físico Rhazes em que ele revelou que a varíola era uma doença infecciosa comum da infância do Sudoeste da Ásia no seu tempo.

A palavra deriva do latim, varius ou varus que significa bexigas. É causada pelo vírus da varíola que parece ter evoluído a partir de um poxvírus animal há cerca de 10.000 anos nas florestas tropicais da África Central.

Com o crescimento da agricultura no nordeste africano, Egipto e Mesopotâmia, por volta do ano 9000 a.C., houve uma aglomeração das populações humanas, o que permitiu a transmissão da doença, sendo mais tarde levada por comerciantes para a Índia, Ásia e Europa. Julga-se que no século XVIII a doença provocou a morte a mais de 60 milhões de pessoas no mundo.

As primeiras descrições da varíola são do médico chinês Ko Hung (340 d.C), de Ahrun de Alexandria (622) e do persa Abui-Bekr Al-Razi (Rhazes), em seu livro De Pestilentia, no século X.

Virologia

O vírus da varíola pertence à família Poxviridae, subfamília Chordopoxvirinae e género Orthopoxvirus. Tem cerca de 300 nm de diâmetro e possui membrana lipídica e DNA próprios. É extremamente resistente aos agentes físicos externos, como as variações de temperatura. Ao entrar no organismo, o vírus hospeda-se numa determinada célula onde produz as suas próprias proteínas e multiplica-se no citoplasma da mesma. O sistema imunitário do organismo reage contra o vírus destruindo as células antes que este se multiplique, porém ele não consegue bloquear completamente a multiplicação do vírus pois a proteína que produz faz com que o este fique resistente aos anticorpos.

Existem duas estirpes do vírus, a varíola “major” e a varíola “minor” que provocam doenças com sintomas muito diferentes e, consequentemente, com taxas de mortalidade também distintas. A varíola “major”, popularmente conhecida como bexigas, caracterizava-se por quadros clínicos mais graves e alto índice de mortalidade (25 a 30%). A varíola “minor”, ou alastrim, mais suave, matava menos de 1% dos atingidos. Existem doenças relacionadas como a cowpox e a monkeypox mas apenas a varíola (smallpox) aparenta provocar a infecção humana.

Epidemiologia

A transmissão ocorre por via aérea e pelo contacto directo face-a-face, com lesões ou fluidos corporais de alguém que esteja infectado com a doença. Todas as peças de tecido em contacto com o doente também podem ser agentes de contaminação. Em casos raros a transmissão da varíola ocorre pelo ar em ambientes fechados como edifícios ou transportes públicos. Se libertado no ar, 90% do vírus torna-se inactivo em 24 horas e a transmissão só ocorre até distâncias de poucos metros. Os seres humanos são os únicos hospedeiros naturais da varíola e desconhece-se a sua transmissão por insectos ou animais.

Manifestações clínicas

As pessoas que contraem varíola têm inicialmente sintomas semelhantes aos da gripe: febre alta, dores de cabeça, mal-estar, cansaço, e dores no corpo (musculares e gástricas) e, por vezes, vómitos e convulsões (principalmente as crianças). Esses sintomas surgem de 7 a 17 dias (período de incubação) após a pessoa ser infectada com a doença. Depois da infecção, o vírus multiplica-se nas células e espalha-se primeiro pelos órgãos linfáticos e depois para a pele pela circulação sanguínea. Surgem manchas avermelhadas na pele que se transformam em bolhas infectadas as quais, após um certo período, secam e formam crostas (primeiro na face, depois nos membros e de seguida mais generalizadas). As crostas caiem após cerca de três semanas, deixando uma cicatriz mas, entretanto, provocam prurido e dor intensa. Existe o risco do doente perder a visão, devido à inflamação grave que pode ser provocada se o paciente tocar nas feridas e passar as mãos nos olhos e ainda, em último caso, infertilidade masculina.

Como a doença fragiliza o sistema imunitário do indivíduo há grande possibilidade de, nesse período, ele contrair novas doenças e infecções.

Tratamento

Não existe um tratamento específico para a varíola. Os pacientes devem tomar líquidos, remédios para controlar a febre e a dor além de antibióticos para combater outras infecções secundárias que possam surgir em decorrência da doença.

Na tentativa de curar a varíola prestava-se o culto aos deuses. Os hindus recorriam a deusa Shitala Mata, a deusa da varíola; São Nicásio, bispo de Rheims, era referenciado na Idade Média como padroeiro das vítimas da varíola; T'ou-Shen Niang-Niang era a deusa da varíola na China; os japoneses recorriam a Chinzei Hachiro Tametomo, um herói mítico do século XII; para os africanos, Xapanã (Sapona), senhor das doenças contagiosas e da cura, enviava a varíola aos seus inimigos. No Brasil era Obaluaê (Senhor da Terra) ou de Omolu (Filho do Senhor).

Tentava-se evitar ou tratar a doença aplicando cânfora, óxido de mercúrio, água de alcatrão e tintura de mirra; retirar o sangue do cordão umbilical, para evitar que as impurezas uterinas, que para muitos era a causa da varíola, fossem transmitidas à criança; uso de bezoares, pedras pequenas encontradas no estômago ou nos intestinos de alguns animais ruminantes, entre outros.

História

Os registos mais antigos sobre a doença foram encontrados em múmias egípcias de há cerca de 3000 anos. Uma múmia de Ramsés V (faraó do Antigo Egipto, f.1557 a.C.), apresenta lesões na sua face, pescoço, ombros e braços o que indicia que ele terá morrido de varíola. Do Vale do Nilo propagou-se pela Índia e chegou à China no século I d.C. No ano de 430 a.C., a varíola matou um terço da população em Atenas. Em 302 d.C. foi descrita uma epidemia na Síria e ao longo de várias centenas de anos, estas foram tornando-se cada vez mais frequentes. Existem fortes evidências de que ela chegou ao Japão em 730.

A varíola espalhou-se pela Europa através da invasão do continente pelos Sarracenos e pelo regresso dos cruzados. A primeira referência à doença na Europa foi feita por Gregório de Tours, cronista do reino franco, em 582, relatando a morte de dois jovens príncipes. Nos séculos II e III matou grande parte da população do Império romano e calcula-se que no século XVII, em Inglaterra, morria o equivalente a um sexto da população.

Através dos espanhóis a varíola chegou à América, às Índias do Oeste 1507 e ao México em 1520, resultando em epidemias que decimaram os Índios e matou quase metade dos exércitos astecas. No Brasil foi primeiramente referenciada em 1563 na Ilha de Itaparica. Com a morte das tribos indígenas, a partir do século XVII, nos Estados Unidos e Canadá, muito mais facilmente se conseguiu colonizar aqueles territórios. Foi introduzida em Austrália em 1789 e novamente em 1829, devastando também várias tribos de indígenas.

Nos séculos XVII e XVIII, a varíola era a doença mais devastante no mundo Ocidental. No ano de 1707, 36% da população da Islândia morreu de varíola num só ano. Boston sofreu oito epidemias durante o século XVIII que atacaram até 52% da população. O último maior capítulo da história da expansão da varíola começou em 1789, quando a infecção apareceu na Austrália com a chegada dos ingleses. No século XVIII era responsável por 10 a 15% de todas as mortes anuais dos países europeus, 80% das vítimas com menos de dez anos de idade.

No início do século XVIII, práticas de inocular crianças com o vírus vivo da varíola prevalentes na China e Médio Oriente e aparentemente em África, foram importadas para a Europa, inicialmente para Inglaterra. Nasceu assim a “variolação”, isto é, a infecção artificial com a varíola em pessoas saudáveis na esperança que ela produzisse casos suaves da doença mas uma imunidade forte. Esta prática não era realizada por médicos treinados mas por curandeiros.

Em Boston, o ministro de Massachusetts Bay Colony, no norte da América, Cotton Mather aprendeu sobre as práticas de inoculação pelo seu escravo africano em 1706 que lhe contou que a variolação era comum em África. Quando uma epidemia maior ocorreu em 1721, a qual atacou metade da população de Boston com uma taxa de mortalidade de aproximadamente de 15%, Cotton Mather persuadiu o Dr. Zabdiel Boylstone a tentar a técnica na cidade. A 26 de Junho de 1721, Boylstone inoculou o seu filho de seis anos e dois escravos e, não muito depois, um filho de treze anos e sete outras pessoas. Apesar da oposição profissional, clínica e pública, Boylstone vacinou pelo menos 247 indivíduos com uma taxa de mortalidade de 2% em comparação com os 15% daqueles que adquiriram a varíola naturalmente. Em Cambridge e Roxbury, outros médicos variolaram mais 36 pessoas. Foi o primeiro teste prático realizado em larga escala, pelo menos no Oeste. Apesar da continuada oposição dos seus colegas, o público começou a reconhecer os efeitos benéficos da variolação.

Por essa altura, Lady Mary Wortley Montagu, que vivia na Turquia (Istambul) sendo mulher do embaixador Britânico e que tinha inoculado o seu filho em 1717, introduziu a prática na corte Britânica. Ela observou que a varíola podia ser evitada inoculando na pele de indivíduos saudáveis o líquido (pus) retirado de uma crosta de varíola de um indivíduo infectado em estado avançado.

A varíola exerceu influências tão grandes durante a Revolução Americana que em 1777 Washington ordenou a inoculação de todas as tropas continentais que não tinham a doença. A prática tornou-se tão bem aceite que quando a doença atingiu Boston em 1792, 97% da população foi vacinada. No fim do século, várias centenas de pessoas tinham sido variolados na Europa e na América (não se sabem exactamente quantos porque os registos não são completos).

Jenner vacina crianca.jpg

Edward Jenner a vacinar uma criança.

O avanço realmente importante na história da varíola foi a experiência realizada por Edward Jenner (1749-1823) ao testar a ideia de que aqueles que tinham cowpox eram imunes à varíola. A 14 de Maio de 1796 vacinou o seu filho James Phipps com material obtido de uma pústula da mão de uma ordenhadora, Sara Nelmes, que tinha sido infectada com a varíola bovina (cowpox ou vaccínia) ao ordenhar vacas infectadas mas que, todavia, não adoeceu com a doença. Depois de outras doze vacinações com sucesso, ele publicou os seus resultados em Junho de 1798 na Inquiry into the Causes and Effects of Variolae, a disease discovered in some of the Western countries of England, particulary Gloucestershire, and known by the name of Cowpox. A palavra vacina deriva do latim vaccinus que significa vacca (vaca).

O Dr. Benjamin Waterhouse (1754-1846) ficou conhecido como o Jenner da América. Ele recebeu a vacina e, em 1800, vacinou quatro dos seus filhos, um rapaz de 12 anos e dois adultos. Estes não voltaram a adquirir a doença mesmo quando expostos ao ambiente contaminado. Infelizmente, as vacinas começaram a ser efectuadas com material inadequado ou realizadas por pessoas inexperientes, o que levou ao desenvolvimento de uma grande oposição à vacinação e à colocação de questões em relação à sua efectividade. Para evitar a contaminação e a continuação das vacinas incorrectas, foram criadas instituições como o Vaccine Institute em Baltimore no ano de 1802 por James Smith.

Entre os anos de 1804 e 1806, Don Francisco Xavier Balmis com o financiamento da Monarquia espanhola, realizou uma expedição à volta do mundo (de Espanha ao Novo Mundo e daí às Filipinas, China e Sta Helena), vacinando todos os que encontrava. Ele utilizava jovens, normalmente órfãos, como reservatórios da cowpox. Quando as distâncias eram grandes era necessário vacinar uma pessoa não imunizada e depois, quando as pústulas se encontravam totalmente desenvolvidas, transferir a doença para outra e assim sucessivamente até chegarem ao destino.

Apesar da disponibilidade da vacina, a varíola continuou a ser endémica nos Estados Unidos nos anos 40 mas o empenho para a remover das populações continuou. Nas zonas temperadas, em 1950, as pessoas estão livres ou quase livres da doença mas a maioria da varíola no mundo atacava nos trópicos onde a vacina perdia rapidamente o seu efeito. Este problema foi resolvido com a descoberta da técnica de congelação nos anos 40 e adaptada para a produção em massa de vacinas em 1950.

Em 1967 a varíola ainda era endémica em 33 países (não incluídos no norte da América e Europa), contudo, devido ao esforço de erradicação global pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo assistiu ao último caso de varíola endémica a 26 de Outubro de 1977, aparecendo na pele de Ali Maow Maalin em Merka (Somália). Em Agosto de 1978, o vírus de alguma forma escapou de um laboratório em Birmingham, em Inglaterra, atingindo Janet Pocker e, subsequentemente, a sua mãe. O filho morreu mas a mãe sobreviveu. O director do laboratório cometeu suicídio durante a quarentena. Estas foram as últimas mortes associadas com a antiga e agora extinta forma da varíola.

Em 1980 a OMS declarou a varíola oficialmente erradicada. As únicas reservas oficiais de vacinas estão guardadas no Centro para o Controlo de Doenças, na América, e num laboratório russo. No entanto, persiste a preocupação de que armazenamentos clandestinos tenham sido ou sejam obtidos por terroristas.

A varíola matou ainda outras pessoas importantes: imperadores chineses, como Shunzhi, czares russos, monarcas europeus e califas árabes, Luís XV de França, Mary II, rainha da Inglaterra (em 1694), o imperador José I da Áustria, o rei Luís I da Espanha, o czar Pedro II da Rússia e D. Pedro Carlos. Muitos sobreviveram, alguns quase sem cicatrizes, como Luís XVI, mas outros ficaram muito marcados tal como a rainha Elizabeth I de Inglaterra (1562) e Mirabeau. Tiveram também varíola Catarina de Médicis, Chateaubriand, George Washington e Abraham Lincoln em 1863.

Bibliografia

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  • Bynum, W. F. & Porter, R. (1993). Companion encyclopedia of the History of Medicine. Routledge, London and New York. Vol. 1-2.
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  • F. Fenner, D. A. Henderson, I. Arita,Z. Jezeck, I.D. Ladnyi (1988). Smallpox and Its Erradication, World Health Organization, Geneva.

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