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(Fonte: Wikimedia Commons) Homem com pelagra

Conhecida como uma doença de pele resultante de um desequilíbrio nutricional, a Pelagra ocorreu em várias áreas geográficas, tendo sido considerada uma das mais aflitivas pandemias mundiais entre os séculos XVIII e XX.


O que é

A Pelagra parece estar relacionada a uma deficiência grave de niacina, vitamina do complexo vitamínico B, ou de um desequilíbrio de aminoácidos (já que o triptofano pode ser convertido em niacina dentro do nosso organismo), sendo normalmente observada nas populações que se alimentam habitualmente com milho ou outros cereais pobres nesta vitamina. Entende-se o envolvimento dos aminoácidos triptofano, leucina e isoleucina, e as vitaminas niacina e B6 na etiologia da Pelagra, visto que o excesso de leucina (presente em grandes quantidades no milho e espécies da sua família) parece interferir com a conversão do triptofano em niacina.

Mencionada pela primeira vez em Espanha, no ano de 1735, pelo médico Gaspar Casal, a doença foi caracterizada como o mal de la rosa. Em França foi-lhe dado o nome de mal de la misère e em Itália foi chamada de mal del sole visto o seu pico surgir no equinócio da Primavera; ela aparecia normalmente no inverno ou primavera e parecia desaparecer poucos meses mais tarde, apenas para recorrer no ano seguinte, com agravamento progressivo dos sintomas. Mais tarde no mesmo século, Francesco Frapolli, médico italiano, nomeou-a de Pelagra: “pele áspera ou seca”.

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(Fonte: Wellcome Images) Dermatite na parte de trás do pescoço de um homem com pelagra crónica. Aquarela de A.J.E. Terzi,1925

No ano de 1755, François Thièry teve a honra da primeira descrição publicada da Pelagra, na qual o médico francês explicava realista e pormenorizadamente os conhecimentos até então recolhidos sobre as manifestações clínicas da doença. Primeiramente são afectadas a pele e mucosas, boca e língua, surgindo inflamações, mas com a evolução pode também desencadear sintomas gastrointestinais tais como a perda de apetite, náuseas, vómitos e diarreia, e ainda sintomas neurológicos como insónias, ansiedade, depressão e irritabilidade.

A Dermatite, ou inflamação da pele, é o sintoma característico da Pelagra e aquele no qual o diagnóstico é baseado. Aparecem lesões simétricas nas mãos e braços, no topo dos pés e à volta dos tornozelos, atrás do pescoço e na face através de numa forma de borboleta. Desta forma, a pele avermelhada, por vezes confundida com queimadura solar, em conjunto com fraqueza e sensação de mal-estar, são as primeiras indicações da doença.

Pelos seus sintomas e evolução, a Pelagra viria a ficar conhecida como a doença dos “3 D’s”: dermatite, diarreia e demência (perturbações mentais como, por exemplo, alucinações). Eventualmente, se não for tratada a tempo, em inglês dir-se-ia que um 4º D aparece: Death (morte).


A Pelagra pelo Mundo

Entre os anos de 1730 e 1930, a Pelagra causou muita morte e miséria persistente, primeiro na Europa, depois no Médio Oriente, partes da África e Ásia, e na América do Norte. Estava sempre associada com uma dieta baseada em milho. A partir dos anos 30 a doença desapareceu virtualmente dos Estados Unidos e sul da Europa, e a sua incidência está a diminuir no Médio Oriente. Continua a ser um problema no Egipto, entre os Bantos (grupo etnolinguístico que se estendem desde os Camarões até à África do Sul e ao oceano Índico) e na Índia, particularmente na região de Hyderabad, onde o consumo de “jowar” (da família do milho) é, aparentemente, o factor desencadeante. A doença pode aparecer sempre que haja fome.


Na Europa

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(Fonte: Wellcome Images) Uma menina no Asilo de Londres a sofrer de pelagra crónica. Aquarela de A.J.E. Terzi, ca 1925

A Pelagra esteve sempre associada a milho ou outros cereais, grãos nativos da América e alimento principal dos índios americanos. Com as viagens de Cristóvão Colombo, o milho foi levado para a Europa, despertando, inicialmente, apenas o interesse de ervanários curiosos sobre as propriedades medicinais das plantas. Todavia, a meio do séc. XVII, pelo menos um ervanário, de Caspar Bauhinus, observou que o grão podia ter efeitos nocivos ao invés de propriedades medicinais benéficas à saúde se consumido em grandes quantidades, tendo sido publicado postumamente, em 1658, em Basel, a descrição de uns rapazes de Guineas que assaram e comeram os grãos, ao invés de pão, e acabaram com a pele tão vermelha como se tivesse sido queimada.

Desvalorizada a advertência, as vantagens do milho eram óbvias, garantindo a sua expansão para lá dos jardins botânicos da Europa, chegando então aos campos rurais. O cultivo fácil e a proliferação da sua produção tornaram-no preferido ao trigo, cevada e milho-miúdo. Assim, no final do séc. XVIII, o milho crescia largamente na Itália, e a partir daí expandiu para a outrora Jugoslávia, para a França, Áustria e Hungria. Aqui, o governo incentivou activamente a sua produção porque, por um lado constituía o alimento principal para os camponeses, e por outro a sua larga produção trazia grandes dízimos para os cofres reais.

A Pelagra foi identificada pela primeira vez por um médico da corte real Espanhola, Don Gaspar Casal, em 1735, na cidade de Oviedo, nas Astúrias. Aí, Casal começou por reparar numa espécie de Leprose que os camponeses chamavam mal de la rosa, e por ser tão horrível, achou por bem explicar as suas características, surgindo então a primeira descrição da doença: extrema fraqueza da vítima, sensações de queimadura, crostas na pele, e melancolia. O médico Espanhol apercebeu-se ainda que os que padeciam do mal viviam à base de milho, enfatizando que a rosa poderia ser tratada adicionando à alimentação leite, queijo, e outros alimentos raramente vistos pelos mais pobres. Thièry, médico francês a trabalhar então na corte Espanhola, leu o manuscrito de Casal e escreveu então uma descrição breve da doença para um jornal Francês, publicado em 1755. O livro de Casal, publicado apenas em 1762, três anos após a sua morte, tem a secção em que discute o mal de la rosa separada das outras doenças, contém a única ilustração do volume, e é escrita em Latim, ao invés de Espanhol. No espaço de dez anos, a doença foi também detectada na Itália onde lhe foi então dado o nome de Pelagra, por Frapolli.

Conhecimentos de casos de Pelagra em Espanha são escassos após o relatório de Casal, mas no séc. XIX a doença propagou-se de forma agressiva pelo norte de Itália e sudoeste de França. Em 1817, um médico Inglês que se encontrava de visita a Milão apercebeu-se que cerca de 66% dos internados numa instituição mental eram pelagrosos.

Théophile Roussel, médico francês, na sua visita a Espanha nos anos 1840s deparou-se com uma falta de relatórios sobre a doença que o deixou perplexo, tendo-se ainda apercebido de que algumas doenças chamadas por vários outros nomes eram na verdade casos de Pelagra, o que o levou a publicar um relatório sobre o assunto. Os médicos Espanhóis ficaram descontentes com esta interferência estrangeira nos seus casos medicinais, mas a insistência de Roussel na existência de uma unidade endémica de doenças tipo-Pelagra foi um passo evolutivo no país.

Olhando para trás, percebe-se de que forma a pelagra se expandiu de mãos dadas ao cultivo de milho. A culpa da doença não era do grão em si, mas antes das condições sociais e económicas inerentes às classes mais pobres da população que se viam forçadas a uma dieta cada vez mais monótona. Em Espanha, por exemplo, a Pelagra surgiu numa região onde a antes próspera criação de ovelhas merinas tinha perdido a sua influência por volta de 1758, e os camponeses foram deixados a tratar das suas vidas conforme conseguissem. Na Itália, o mezzadria, um sistema de posse de terras, ajudava ao empobrecimento dos camponeses, visto que metade das suas colheitas se destinavam a pagar a renda ao proprietário rural. No sul de França, o milho não representava uma colheita importante até o séc. XVIII já ir avançado, e a sua produção não foi muito explorada nos arredores de Paris até 1829, altura em que surgiu o primeiro relato de Pelagra no país. Os camponeses que padeceram da doença eram inicialmente pastores de ovelhas cuja terra era pobre, e o dinheiro e comida tão escassos que se alimentavam exclusivamente por vegetais. Os Franceses tiveram mais sorte que os seus vizinhos: beneficiaram do trabalho de Roussel, o qual acreditava vigorosamente que a Pelagra se devia a alimentações com base no milho, o que encorajou reformas que visavam melhorar o fornecimento de alimentos e as condições de trabalho e vida dos camponeses. Roussel escreveu dois livros sobre a Pelagra, sendo que o segundo, publicado em 1866, dizia que o problema da doença seria resolvido através do progresso social, e não por descobertas científicas. A sua argumentação persuadiu o governo Francês que diminui assim a cultivação de milho para a alimentação humana encorajando antes a criação de animais. Com o virar do século, a Pelagra já tinha virtualmente desaparecido da França.

Algumas pessoas aceitavam a ideia da doença ser causada pelas condições económicas, outras não tinham essa capacidade. Esta teoria do milho como prejudicial à saúde foi usada para explicar como é que a Pelagra acabou em Yucatan em 1882, aquando da destruição das colheitas de cereais pelos gafanhotos. Assim como o ressurgimento da doença com a importação do cereal de Nova Iorque, que voltou então a ser utilizado como alimento dos mais pobres. Quando as colheitas tornaram a falhar no séc. XX, o cereal foi de novo importado para Yucatan, e novamente se deram surtos destrutivos de Pelagra.

Aqueles que não se convenciam de que os cereais eram os responsáveis pela Pelagra, pensavam que a hereditariedade tomava também parte no desenvolvimento da doença, que a má qualidade do ar era responsável, ou que o mal era causado por algum organismo não-visível, um vírus. Mas no século XIX a maioria dos que acreditavam que o mal era a alimentação baseada no milho conseguiram triunfar junto dos governos, persuadindo-os com sucesso significativo a agir com vista ao corte no consumo de cereais, como feito originalmente na França.

A Pelagra na actualidade

Até se conhecer melhor a doença, a taxa de mortalidade circundava os 70%. Hoje em dia sabe-se que a Pelagra é uma desordem nutricional multissistémica primária a uma deficiência de nicotinamida dentro da célula. Esta deficiência pode ser primária a uma consequência de deficiência em niacina ou triptofano na dieta ou secundária a uma doença subjacente. Uma dieta rica em pão, lacticínios, farinha, e farinha de milho com vitaminas, e outros alimentos que confiram certos nutrientes essenciais, previne a doença.

Desde que foi descrita pela primeira vez no séc. XVIII, membros das classes mais altas dividem-se entre quem nega a existência da doença e quem encontra a culpa pelo seu aparecimento nas fraquezas morais inerentes das suas vítimas. Na América do Sul, a Pelagra tornou-se uma questão política e social. A sua presença distinguiu uma região que muitos sulistas não acolhiam bem. Com o fim do séc. XX, a doença surge em alguns pontos isolados no Egipto, Lesoto, e Índia. As suas vítimas são pobres, tal como eram os camponeses Espanhóis que consultaram o Don Gaspar Casal, nas Astúrias em 1735.

Nos países mais desenvolvidos, a Pelagra é diagnosticada ocasionalmente, normalmente associada ao consumo regular de álcool, podendo também o seu desenvolvimento relacionar-se com infecções parasitárias, particularmente shistosomíase. A Pelagra pode ainda ser desencadeada pelo tratamento com certas drogas (como a Isoniazida, usada no tratamento da tuberculose).


Bibliografia

Kiple, K. F. (1993). "Part VIII: Major Human Diseases Past and Present". In The Cambridge World History of Human Disease. Cambridge: Cambridge University Press. pp. 918-923.

Enciclopédia Médica Familiar - O Livro da Saúde (1976). 8ª Edição. Lisboa, Portugal: Selecções do Reader’s Digest.

Diciopédia 2009 [DVD-ROM]. Porto, Portugal: Porto Editora, 2008. ISBN: 978-972-0-65264-5.

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