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Magia e medicina da Idade Média

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Nesta aguarela, datada de 1420-30, podemos observar um diagrama esquemático das várias subdivisões dos sete vícios, da magia e dos vinte abusos (doze monástico, oito secular), estando estes gravados em círculos ligados por linhas vermelhas onduladas, emanadas a partir dum círculo no cimo da página que contém o demónio. Este segura dentes e uma cobra.

A Magia consiste num conjunto de práticas baseadas na crença em forças sobrenaturais imanentes da natureza, assim como em entidades invisíveis (anjos, espíritos, génios e demónios), visando a obtenção de efeitos surpreendentes e maravilhosos. Os rituais mágicos tiveram grande importância na prática médica durante a Idade Média.

Origem da Magia

A Magia surge-nos na pré- história na origem de todas as raças e em todos os continentes, variando os processos apenas conforme os costumes dos povos e o clima. Teria tido a sua origem no terror do desconhecido e nos perigos que deviam suscitar ao Homem primitivo certos fenómenos da natureza, como trovoadas, terramotos, etc. Firmando esse temor a fórmulas de simbolismo, e dando como energias conscientes as forças da natureza, a Magia criou as religiões primitivas às quais está intimamente ligada pelo seu executante, o mago, que é geralmente o sacerdote. Existe uma difusão de uma mentalidade mágica entre os povos primitivos e as camadas incultas dos povos civilizados. Apenas há um tempo relativamente recente é que se chegou a uma separação sistemática dos processos mágicos dos aspectos religiosos e sociais a que se relacionam. Os autores, levados por tendências mais ou menos pronunciadas a procurar explicações gerais da mentalidade primitiva, não foram muito cuidadosos em estabelecer as distinções necessárias entre os referidos conceitos. Compreende-se assim, o esforço que foi aplicado para encontrar o sobrenatural nas culturas mais primitivas, nas quais se torna dificílimo apurar factos religiosos. Surgiu, desta forma, a concepção, preanimista de forças mágicas distintas dos espíritos, hipótese esta que tentou preencher uma lacuna e tão absorvente que o animismo, apresentado desta forma parece reduzido a demologia.

O Processo Mágico

Uma constante do processo mágico consiste na associação no pensamento de uma conexão factual de um acontecimento que procede erroneamente uma acção, concluindo-se, assim, a existência que uma associação no espírito deve envolver uma semelhante conexão na realidade. A semelhança, reprodução e continuidade no tempo de actos mágicos ou, em certas culturas, da concentração mental de um feiticeiro, é capaz de produzir os factos desejados. A Magia baseia-se na acepção de que o Homem funciona como uma fonte de energia (“fluído ódico”), que através do domínio da vontade do indivíduo pode ser orientada para actuar para o Bem, ou para o Mal, mediante o auxílio de determinadas fórmulas e objectos. Este género de energia é considerada a maior de todas as energias cósmicas, podendo ser emitida conscientemente pelo Homem, dando vida e movimento a coisas e seres. A concentração dessa força necessita a convergência ou a divergência das energias similares e antitéticas sob a lei. Todo o desejo é uma corrente mental sobrecarregada de grande poder, sendo este o segredo de todo o processo mágico. Este género de força é fixada e armazenada em várias substâncias como óleos vegetais, sal e água, sendo estas usadas como polarizadores da vontade do indivíduo. Os Magos transmitem aos planos superiores o fluido que a pessoa nela inconscientemente acumulou, pela acção da Vontade, da Fé e do Desejo, nos referidos tipos de objectos, constituindo estas as alavancas motoras da Magia. É assim através da educação destas três influências, que se obtêm os efeitos mágicos com o auxílio dos pentáculos, amuletos e talismãs e ainda do verbo escrito ou falado e proferido segundo ritos. Por isso os rituais são secretos, complicados e preciso para que a operação mágica produza resultados eficientes.

Magia Branca, Magia Negra e seus Rituais

A Magia tanto pode ser usada para o Bem, como para o Mal. Quando a Magia se exerce para o Bem, denomina-se Teurgia ou Magia Branca, quando é exercida para Mal, designa-se de Coecia ou Magia Negra. Esses efeitos dizem-se ser obtidos por diversos processos, nomeadamente cerimónias mágicas, invocações, conjurações, pactos e feitiços. Podem surgir pela repetição em voz alta de umas mesmas palavras de sonoridade especial, de preces com uma redacção particular, quer por meio de operações rodeadas de um cerimonial pré-estabelecido. Assim, de acordo com a Magia Branca as cerimónias que todas as religiões empregam no seu culto são para benefício moral e material dos seus fiéis. Na Magia Negra a acção dos feiticeiros tem como objectivo o malefício e prejuízo de outrem usando encantamentos, a necromancia, a fascinação, os sortilégios ou os filtros. O movimento é uma característica essencial da acção mágica, quer em operações mecânicas, quer em danças, cânticos e narrativas, constituindo uma técnica independente da experiência, cujos princípios são insusceptíveis de alargamento e cujos efeitos são automáticos.

Magia e Medicina

“A Medicina Primitiva é largamente mágica, mas parcialmente empírica; a Medicina Moderna é largamente empírica, mas parcialmente mágica”(Ackerknecht, 1971). A Medicina primitiva deve ser estudada no seu próprio contexto, e não num plano de racionalismo científico, uma vez que esta faz parte de um padrão cultural. As doenças são socialmente definidas em culturas primitivas, e a doença tem uma importância nas diversas dimensões de uma sociedade, mesmo nas sociedades modernas. As crenças e práticas das pessoas são encorajadas em conformidade com os valores prevalentes na sua cultura. Muitas das doenças que afectam as populações são consideradas como infortúnios, que podem ser interpretados no plano das crenças sobrenaturais. Assim, uma doença seria o resultado de várias transgressões de regras que governam o comportamento moral das pessoas. Apesar do interesse das pessoas para explicar as doenças sob um ponto de vista sobrenatural, muitas reconhecem tanto causas sobrenaturais como causas naturais para explicar o surgimento de uma doença. Também foi demonstrado que diferentes etiologias são invocadas de acordo com a natureza da doença ou as circunstâncias em que esta aparece. As explicações causais para uma certa patologia, estão inevitavelmente relacionadas com os métodos utilizados para as curar. As técnicas de cura variam largamente. Mesmo em sociedades mais simples existe uma grande variedade de técnicas de cura. A resposta da sociedade às pessoas doentes é moldada pela sua compreensão da doença em si mesma, sendo esta dependente da cultura.

Ciência, Magia e Religião

Apesar da grande influência que a ciência tem tido na sociedade moderna, o pensamento científico moderno é apenas praticado por uma restrita elite intelectual. A ciência desenvolveu-se em culturas dominadas por crenças religiosas e mágicas, e muitos académicos estão despertos para o facto de que a interacção entre filosofia natural e crenças sobrenaturais, na Idade Média e na Europa Moderna mais primitiva, ter sido bastante complexa. É necessário ter em consideração que os contemporâneos raramente distinguiam eficientemente fenómenos naturais de fenómenos sobrenaturais. Mesmo os grandes cientistas do século dezassete viam estes dois conceitos como domínios sobrepostos, e não concordavam sobre os critérios que deveriam ser empregues para demarcar os reinos da razão dos da fé. Há um anacronismo na visão da revolução científica como um simples triunfo da razão sobre o ilógico. Persiste a ideia de ver a religião, a ciência e a magia como sistemas de pensamento totalmente independentes. O crescente prestígio e influência da interpretação científica das nossas experiências do mundo exterior, é a mais profunda mudança na cultura do mundo Ocidental desde a Idade Média. As ideias científicas são aceites pelos leigos como uma forma de fé e não pelo facto de terem compreendido plenamente as matérias de facto. Malinowski argumenta que a magia é uma espécie de pseudo- ciência designada para alcançar certas finalidades, através de meios místicos que não podem ser alcançados através da tecnologia. Este autor enfatiza que os rituais mágicos servem para aliviar a ansiedade de indivíduos vulneráveis ás forças da natureza. A magia popular é uma colecção de técnicas designadas para manipular o mundo físico, mais do que uma complexa instituição social e intelectual, como uma religião. A Magia popular deve ter sido baseada no ponto de vista de que o mundo é coerente e compreensivo sob o ponto de vista dos seus praticantes. A Magia e a feitiçaria têm como intenção mostrar como essas crenças formam um sistema de ideias são expressas em comportamento social. Para Horton, a única característica específica do pensamento científico é que é um sistema “aberto”, existindo bastantes semelhanças entre o pensamento religioso e a teorização científica. O pensamento científico não é reduzido meramente para um determinado sistema de crenças culturais, mas não é desprendido completamente de um sistema cultural. A evolução de um conceito pejorativo de “Magia” deve ser clarificado. A relação entre crenças científicas e práticas podem ser estudadas directamente na História da Medicina.

Magos Célebres

Entre os magos mais célebres da Antiguidade podem citar-se: Hermes Trimegista, no Egipto, o hebreu Seth, Jarad, Simão, o Mago, Apolónio de Tiana, mas são os sacerdotes de Zoroastro os mais famosos. Surge igualmente na Grécia, depois da conquista de Alexandre, e em Roma, no tempo de Augusto. Os filósofos da escola de Alexandria ensinavam-na publicamente. Nero foi iniciado por Tiríades e admirou Simão; Vespasiano, Dominicano, Adriano, Marco Aurélio e o próprio Constantino cultivavam a Magia. A Universidade de Toledo tornou-se célebre nesses estudos e por ela nos vem Frei Gil. Mais modernamente, José Bálsamo, o chamado Conde de Cagliostro, tornou-se célebre com as suas práticas de Magia e já nos nossos dias Estanislau de Guaita, Elifas Levi, o Marquês Saint Yves d’Alveydre e o Dr. Gerard Encausse, com o pseudónimo de Papus, ficaram conhecidos por afirmarem a sua veracidade.

Bibliografia

  • Nova Enciclopédia Larousse (2001). Círculo de Leitores, SA e Larousse/VUEF, Vol. 14. Printer Portuguesa, Ind. Gráfica, Lda, Rio de Mouro.
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia Limitada: Rio de Janeiro e Lisboa, Vol.15.
  • Loyn, H. (1990). The Middle Ages: a concise encyclopaedia.Jorge Zahar Editor, Ltda.
  • Antropological perpectives on science and medicine (incompleto)

Ligações Externas

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