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Cláudio Galeno

Galeno, uma das personagens históricas mais importantes no campo da medicina, teve uma grande influência na evolução para alguns dos conceitos médicos modernos. O conceito da pequena circulação não é excepção.

Introdução

Galeno tinha, então, uma ideia construída acerca do fluxo de sangue das veias para as artérias.

Esta teoria baseava-se no facto do sangue passar pelos pulmões só depois de, antes, ter sido arejado. Assumia, assim, dois possíveis caminhos para o sangue passar do lado direito para o lado esquerdo do coração:

  • através de poros no septo interventricular
  • através de anastomoses entre as veias e artérias pulmonares

Desta forma, Galeno introduziu pela primeira vez o conceito de “caminho pulmonar”, que mais tarde veio dar origem à nossa conhecida pequena circulação. Contudo, esta teoria não foi muito bem aceite pelos seus sucessores, uma vez que, segundo estes, apresentava alguma inconsistência:

  • pressupunha que os produtos tóxicos da combustão deveriam passar (contra a corrente sanguínea) pelo ventrículo esquerdo para os pulmões, de forma a serem expulsos na respiração
  • referia que todas as válvulas cardíacas (excepto a válvula mitral) encerravam competentemente, impedindo de forma eficaz o refluxo de sangue, mesmo quando Galeno citava também que, de alguma maneira, o sangue venoso poderia voltar do ventrículo direito para as veias jugulares (o que seria impossível pelo perfeito encerramento da válvula tricúspide):

“Quando os nutrientes acabam de ser transformados em sangue, eles fluem do fígado para o ventrículo direito do coração. Do coração, o sangue é enviado para cima, através das veias jugulares e também através da veia cava, para todas as partes do corpo.”

Mais tarde, esta ideia caiu no esquecimento. Só depois, na era do Renascimento (o reviver dos estudos clássicos), se voltou a falar do assunto.

Evolução

Ibn-An-Nafis (1210-1288)

Ibn-An-Nafis, médico árabe, negou a hipótese do sangue poder passar pelo septo interventricular (seria demasiado grosso para esse efeito). Admitiu, assim, que o sangue passaria do lado direito do coração para o esquerdo através das anastomoses pulmonares.

Este médico manteve ainda uma ideia errada – a ideia de que o ventrículo direito prepararia o sangue para a sua combinação com o ar nos pulmões.

“A citação de que o septo é poroso está errada. O que o fez aceitar esta visão foi a sua crença de que o sangue alcança o ventrículo direito, a partir do ventrículo esquerdo, através desses poros. Esta crença é falaciosa, uma vez que a passagem do sangue para o ventrículo direito vem dos pulmões.”

Os médicos da Idade Média não estariam, também, muito familiares com este conceito Galénico sobre o fluxo sanguíneo através dos pulmões. Parece que, apesar de estarem disponíveis vários textos de Galeno, as suas ideias não são mencionadas, uma vez que entravam em conflito com os preconceitos dos autores da época. Ibn-An-Nafis chegou mesmo a omitir Galeno quando escreveu sobre o fluxo de sangue para o ventrículo esquerdo:

“O sangue passa através da artéria pulmonar para os pulmões. O sangue arejado passa através da veia pulmonar para alcançar a cavidade esquerda do coração”

Contudo, apesar de apresentar um conceito certo sobre este fluxo sanguíneo, Ibn-An-Nafis não explicou que forças levavam o sangue a chegar aos pulmões, uma vez que assumia que o lado direito do coração não tinha qualquer movimento (quando Galeno, por sua vez, já antes tinha descrito a sístole e a diástole em ambos os ventrículos).

Sendo assim, pode-se afirmar que o único mérito que Ibn-An-Nafis teve na História foi ter renascido a ideia Galénica do fluxo de sangue através dos pulmões.

Servetus (1509-1553)

Servetus reconheceu que Galeno já tinha descrito a circulação sanguínea através dos pulmões para o ventrículo esquerdo. Contudo, mencionando o artigo no qual Galeno (que assumia também a existência de conexões vasculares invisíveis entre os vasos sanguíneos) comparava a circulação sanguínea através dos vasos pulmonares à circulação sanguínea desde a veia portal às veias hepáticas, negou qualquer crédito que pudesse pertencer a Galeno:

“Nós podemos descobrir que o sangue nos pulmões está a fluir da artéria pulmonar para a veia pulmonar pela mesma maneira inteligente pela qual flui pela veia portal no fígado até à veia cava. Se se comparar este facto com o que está escrito no 6º e 7º livro De usu partium reconhece-se claramente a verdade que o próprio Galeno não reconheceu.”

Galeno referiu pequenas aberturas pelas quais o sangue era transferido da artéria para a veia pulmonares, durante a compressão respiratória dos pulmões. Servetus, de uma maneira quase que transcrita, refere-se também a “várias comunicações e anastomoses que unem a artéria pulmonar com a veia pulmonar”e a uma “acção intermediária dos pulmões. Ora, isto demonstra bem a grande influência de Galeno, quer Servetus tenha mesmo transcrito ou não.


Jean Fernel (1497-1558)

Jean Fernel resumiu, explicou e ocasionalmente criticou muitos dos textos médicos de Galeno.

Ele aceitou a ideia de que o sangue sai do lado direito do coração através da artéria pulmonar, e que não volta para trás devido ao perfeito encerramento das válvulas pulmonares durante a diástole ventricular. Contudo, não concordou com a teoria das anastomoses pulmonares.

Desta forma, podemos concluir que, ao comparar textos Galénicos com descrições de Fernel, este último, para além de omitir a sugestão de Galeno da existência de comunicações entre a artéria e veia pulmonares (anastomoses), também substituiu a palavra “sangue” por “espírito”. O único avanço dado por Fernel foi a sua omissão, da ideia errada proveniente de Galeno, de que o sangue conseguisse passar através do septo interventricular.


Andreas Vesalius (1514-1564)

Andreas Vesalius editou, em cooperação com outras pessoas, a tradução de alguns dos textos de Galeno. Porém, estava mais interessado em editar De anatomicis administrationibus, não conhecendo bem De usu partium onde estava referida a ideia do trânsito pulmonar do sangue.

Vesalius, depois de muito hesitação, acabou por negar a existência de poros no septo interventricular. Num primeiro livro, Fabrica, descreveu:

“O coração atrai ar e puxa uma grande quantidade de sangue do ventrículo direito para dentro do ventrículo esquerdo.”

Já num segundo livro, Epitome, Vesalius corrigiu-se, conformando-se:

“Somos conduzidos a admirar o trabalho manual do Todo Poderoso, pelo facto do sangue passar do ventrículo direito para o esquerdo através de passagens que escapam à visão humana.”

Concluindo, apesar das suas observações anatómicas estarem correctas, ele falhou em perceber a teoria de Galeno sobre o trânsito pulmonar do sangue. Há também quem diga que esta negação de Vesalius sobre a permeabilidade do septo interventricular ofereceu a inspiração necessária para a descoberta da circulação pulmonar do sangue a Servetus e a Colombo.


Realdo Colombo (1516-1559)

Aluno e sucessor de Vesalius na disciplina de Anatomia na Universidade de Pádua, Realdo Colombo é aqui uma personagem histórica importante.

Parece que Colombo foi bastante influenciado por Galeno, concordando também com a sua teoria da passagem de sangue arejado dos pulmões para o ventrículo esquerdo. Colombo merece um grande reconhecimento pelo facto de que, pela primeira vez, constatou que as veias pulmonares contêm sangue e que este flui para o coração. O facto de Galeno nunca ter descrito isto nos seus textos levou à principal causa da sua teoria sobre a pequena circulação não ser totalmente entendida.

Colombo escreveu então:

“O ar inspirado é transportado através da traqueia para o pulmão inteiro. O pulmão mistura completamente este ar com o sangue, que entra, depois da sua perfeição, do ventrículo direito através da artéria pulmonar. Esta artéria usa o sangue para a sua própria nutrição. Mas há tanto sangue que pode ser utilizado para outros propósitos. Portanto, parte do sangue é minuciosamente misturado pelo movimento dos pulmões e torna-se refinado. Este sangue torna-se intimamente misturado com o ar, que por sua vez é modificado pela colisão e fragmentação. Deste modo, sangue e ar são recebidos simultaneamente na veia pulmonar e daí vão para o lado esquerdo do coração.”

O facto de Colombo ter também assumido que o único caminho que o sangue tinha para voltar dos pulmões era através da veia pulmonar (não existindo comunicação entre os pulmões e a artéria Aorta) demonstra que seguiu novamente os textos de Galeno, que igualmente citavam que não existiria um quinto vaso sanguíneo.


Fabricius de Aquapendente (1533-1619)

Um contemporâneo de Colombo, Fabricius de Aquapendente admitiu que a descrição de Galeno sobre os vasos sanguíneos fetais estava, na maioria, correcta – o sangue é desviado do lado direito para o esquerdo, durante a vida fetal. No entanto, já não entendia muito bem o conceito da circulação sanguínea passar pelos pulmões para depois chegar ao lado esquerdo do coração.


Caesalpinus (1519-1603)

Caesalpinus, também ele contemporâneo de Colombo, foi igualmente creditado pela descoberta da pequena circulação (apesar de nunca ter aclamado essa descoberta). Ao contrário de Colombo, não realizou quaisquer experiências para o comprovar.

No entanto, Caesalpinus cometeu alguns erros:

• Disse que o sangue vinha já aquecido no lado direito do coração

• Pensou que o sangue venoso apenas retornaria ao coração se, durante o percurso da circulação, encontrasse um obstáculo

Há quem diga que Caesalpinus apenas repetiu, com uma certa distorção de dados, as ideias Galénicas originais.


William Harvey (1578-1657)

William Harvey surge também aqui como uma peça-chave histórica importante. De certa maneira, é confrontado com um problema interessante - não só teria que continuar de modo correcto e lógico a “herança” deixada por Galeno e Colombo, como também teria que ultrapassar os conceitos errados igualmente gerados por Galeno.

Harvey concentrou-se, então, na parte mecânica do fluxo sanguíneo, ficando assim apto para reconhecer e confirmar que Galeno possuía os conceitos certos sobre a circulação pulmonar do sangue.

Harvey tem, deste modo, a noção de que o seu trabalho - descoberta do verdadeiro mecanismo da circulação do sangue - está baseado no trabalho realizado antes por todos os seus antecessores, principalmente por Galeno.

Bibliografia

SIEGEL, Rudolph E., (1968), "Galen's influence on the development of the modern concept of the lesser circulation", Galen's system of physiology and medicine, Suíça, S. Karger AG, pp. 63-78

http://images.wellcome.ac.uk/ixbin/hixclient.exe?MIROPAC=V0002113 (imagem)

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